25 de setembro de 2012

Como Jaime Serra revolucionou a infografia

[ Por Marcelo Pliger ]*

Jaime Serra é uma figura genial. Foi apontado como o infografista mais influente dos últimos 20 anos e autor do infográfico mais influente desse período. A escolha foi resultado de uma votação organizada este ano pelo Malofiej, congresso mundial de infografia. Minha impressão é que a influência ainda será sentida por um bom tempo. Pode-se afirmar a injustiça com outros profissionais igualmente importantes, mas é difícil duvidar da justiça em relação à indicação do seu nome.

Mas por que ele é tao bom? Para tentar entender isso precisamos analisar duas fases de seu trabalho. Primeiro, temos de voltar aos anos 90 quando os jornais consolidavam o uso de computadores em suas redações. Naquela época, programas de ilustração vetorial detinham o monopólio das ferramentas usadas pelos infografistas. Podemos dizer que haviam duas grandes escolas: uma de perfil mais técnico  e científico que buscava reproduzir os fatos da maneira mais fiel possível (imagem 1) e a outra de contorno mais artístico e pop,  que fazia uso de metáforas e de humor para atrair e facilitar a compreensão das informações pelo leitor (imagem 2). É claro que essa divisão não era definida tão nitidamente e profissionais flertavam com um ou outro estilo.
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Serra era um jovem espanhol interessado em artes gráficas que foi atraído para trabalhar em um jornal devido a possibilidade de trabalhar com computadores. Esteve envolvido com a turma que, liderada por Mario Tascón, explorou o potencial da nova máquina para produzir bom jornalismo. Após alguns anos, em 1996, Serra foi convidado a migrar para a Argentina afim de criar o departamento de infografia do jornal Clarín. Em apenas um ano, a novíssima equipe organizada por ele ganhou um número considerável de prêmios apresentando trabalhos inovadores que impulsionavam a infografia a um novo patamar de possibilidades comunicativas e projetando Serra como um infografista conhecido em diversos países.
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Numa primeira avaliação é possível dizer que o segredo do sucesso desses trabalhos foi o uso de outras ferramentas além da ilustração vetorial. Serra passou a criar infográficos com fotografias, colagens, esculturas, pinturas, maquetaria e até mesmo azulejaria. Mas essa conclusão é equivocada. O que realmente fez a diferença foi a maneira como esses materiais foram usados. Um dos melhores exemplos disso é o gráfico do pão (imagem 3). No lugar de um simples gráfico de pizza sobre as faixas salariais ganhas na Argentina, Serra usou a imagem de um pão dividido em fatias, cada fatia referente a uma faixa salarial específica, sendo que a maior faixa, a maior fatia, indicava a parcela daqueles que não ganhavam dinheiro o suficiente para comprar uma sexta básica. Serra tirou essa fatia e completou com migalhas do pão o espaço deixado. A relação simbólica do pão como alimento é imediata. A relação da falta do pão, das migalhas, com a fome, também. É um gráfico claro e simples, mas com uma narrativa tão sofisticada quanto os melhores exemplos de literatura, fotografia, cinema, quadrinhos e pintura, entre outros. Serra e sua equipe fizeram algumas dezenas de trabalhos como esse e foram seguidos por profissionais do mundo todo. Os infográficos mais criativos e consistentes da revista brasileira Superinteressante, por exemplo, devem muito a esse tipo de narração que com o tempo passou a ser conhecido como estilo Clarín.
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A produção do Clarín desse periodo não apenas se posicionou cuidadosamente no meio das duas escolas de infografia que mencionei anteriormente, como criou uma nova forma de pensar o infográfico jornalístico, abrindo prescedente para a incorporação de técnicas de comunicação visual que enriquecem a mensagem jornalística. De certa maneira, é possível dizer que o trabalho produzido pela equipe de Serra nesse período é equivalente, na infografia, ao que significou o New Journalism, de Gae Talese e Tom Wolf, no texto jornalístico.

É preciso frisar também que grande parte do mérito desses trabalhos se devem ao grau de liberdade que Serra encontrou naquele jornal, naquele período. Hoje, crises financeiras e objetivos de mercado tendem a reduzir o espaço para experimentações dentro das grandes empresas de jornalismo. Serra passou cerca de cinco anos no Clarín, depois perambulou por outros paises como consultor até retornar à Espanha, onde trabalha no jornal La Vanguardia.

Quando eu me referia a um possível novo período de influência de Serra, não quis dizer que seria um período como o do Clarín nos anos 90.. Serra está produzindo um material completamente diferente, novo e talvez ainda mais instigante: uma coluna semanal infografada. Um espaço vertical estreito que ocupa com infográficos sobre os temas mais inusitados: um mapa de preferências musicais feito com marcas de pontas de cigarro apagados durante uma viagem, a comparação visual da vida sexual de três casais, um jogo de passatempo que mostra tipos de mutilação genital feminina, entre outras invenções (imagens 4, 5 e 6).
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O espaço tornou-se um laboratório de experimentações com a mesma liberdade dos anos do Clarín, talvez com mais liberdade. Dessa vez, sem deixar espaco para se confundir a inventividade desses infográficos com uma simples troca de ferramentas. A chave desses trabalhos não está mais na materialidade gráfica das ferramentas, mas no raciocínio gráfico, em formas surpreendentes de pensar visualmente.
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Serra está desconstruindo a infografia exercitando pequenas revoluções na estrutura de comunicação diagramática de informações que temos usado até aqui. É isso que torna o trabalho de Jaime Serra tão especial, uma capacidade de enxergar a infografia de forma tão revolucionária e provocativamente simples quanto as melhores ações artísticas de Marcel Duchamp.

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* Marcelo Pliger é designer de informação e infografista da Folha de S.Paulo. Entre outros prêmios, já recebeu medalhas de prata e bronze no Malofiej e é mestre em Comunicação e Semiótica com dissertação sobre a expressividade em infografia, pesquisa em que analisa parte do trabalho de Jaime Serra.